Frequentemente nos deparamos em alguns clientes com réguas de apetite a risco inteiramente subjetivas, onde a análise do impacto recai sobre julgamento e percepção. E uma preocupação maior é que essas réguas não medem o maior benefício de uma gestão de riscos bem aplicada: A quantificação da “Destruição de Valor”.
Quando não há um claro entendimento da quantificação do impacto do risco, a implantação de estratégias de mitigação pode não endereçar os riscos prioritários em função justamente da subjetividade e julgamento do impacto.
Diariamente as empresas experimentam perda de valor pela materialização de riscos. E isso é mais claro nas empresas de capital aberto, que quantitativamente conseguem enxergar na cotação das ações os efeitos de riscos materializados. Destruição de Valor!!
Nestas, há uma correlação direta entre determinados eventos (riscos materializados) e a queda no preço da ação. Nestes casos, a identificação dos Destruidores de Valor (“Value Killers”) é mais objetiva, porém nossa experiência tem demonstrado que, mesmo assim, essas empresas não empregam em sua régua de apetite tais impactos objetivos e quantificáveis como os relativos a variação do preço da ação, o que no mínimo torna-se curioso e no máximo uma perda incrível de oportunidade.
Oportunidade de conectar esses eventos diretamente com a destruição de valor e trazê-los para o radar do ERM para monitoramento e resposta prioritários.
Abordagem quantitativa para mensuração dos Destruidores de Valor (“Value Killers”)
Mas, curiosamente, a nossa experiência na análise do apetite e tolerância a riscos e seus respectivos KRI´s – Key Risk Indicators nas empresas, tem demonstrado que estas não possuem medição de risco por “queda no preço das ações”, o que representa objetivamente destruição de valor do negócio.
E esse fato é ainda mais curioso pelo desejo constante dos especialistas em Gestão de Riscos de buscarem critérios objetivos e quantitativos para medir o impacto dos riscos nas empresas.
Então, utilizando a abordagem focada em identificar e desarmar os destruidores de valor e buscando utilizar critérios quantitativos, torna-se fundamental que toda régua de apetite e tolerância a riscos possua a mensuração da perda de “Valor do Negócio”.
Abaixo demonstramos um modelo de régua onde constam critérios objetivos de quantificação e dentre eles há o componente “Valor do Negócio”, junto a outros componentes quantitativos para medição do impacto:

Régua quantitativa com impacto “Valor do Negócio” em empresas de capital fechado
As empresas de capital fechado que não possuem ação negociada em bolsa não conseguem monitorar de forma objetiva a destruição de valor no componente “Valor do Negócio”, que está intimamente ligado ao preço do negócio que os investidores estão dispostos a pagar.
Uma saída para essa limitação é a empresa adotar como uma iniciativa de suporte a gestão de riscos e ao monitoramento da evolução do negócio, anualmente ou semestralmente realizar um “Valuation” da empresa, pelo método do fluxo de caixa descontado, seguindo um premissário padrão de projeção, visando quantificar eventos que representam Destruidores de Valor, uma vez que estes podem levar de 3 a 6 meses para “manchar” as Demonstrações Financeiras e indicadores chaves do negócio.
A seguir listamos exemplos de eventos Destruidores de Valor (Value Killers”):
- Crise de reputação e imagem – eventos que envolvam qualidade de produto/serviço que tenham causado problemas a saúde / integridade física de clientes e não clientes.
- Perdas/Problemas de Clientes – Gerenciamento insuficiente de perdas quando clientes valiosos enfrentam problemas, levando a uma queda na demanda e consequentemente nas vendas e nas margens.
- Perdas Climáticas – Perdas resultantes de eventos relacionados ao clima, catástrofes e similares.
- Problemas na Cadeia de Suprimentos – Gerenciamento insuficiente da execução da cadeia de suprimentos, levando a atrasos, falta de produtos e consequentemente queda de produção e aumento de custos.
- Crise na Indústria – Problemas resultantes de eventos de oferta, demanda, regulatórios ou outros eventos em toda a indústria.
Muitas das maiores empresas do mundo sofreram perdas tremendas em valor de mercado na última década. Muitas dessas perdas ocorreram devido a falhas em antecipar, proteger-se e gerenciar riscos diversos corretamente.
Hoje, a gestão de riscos é uma questão crítica para CEOs, Conselhos e Comitês de Auditoria à medida que informações de negócio, principalmente de reputação e imagem, navegam de forma explícita e viral nas redes sociais.
Para preservar o valor, as empresas precisam ir além e criar uma função de gestão de riscos integrada e abrangente, com critérios quantitativos e mensuração permanente das perdas decorrentes dos riscos materializados e do valor do negócio.
As empresas que adotam essa abordagem abrangente de gestão de riscos definiram um apetite geral ao risco e modelaram interdependências críticas entre diferentes tipos de riscos.
Elas empregaram testes de estresse e investiram em novas capacidades para aumentar a habilidade da organização de suportar riscos de “baixa probabilidade e alto impacto”.
As iniciativas de gestão de riscos devem ir além da simples conformidade, para investir na criação de uma cultura que leva todos os colaboradores da empresa a agir como guardiões do valor corporativo.
Para isso são necessários processos de negócios e sistemas de informação que informem a Alta Administração, o Conselho e o Comitê de Auditoria em tempo real sobre riscos-chave, problemas antecipados e a resposta da empresa.
Embora o risco nunca possa ser eliminado, as empresas que avançam numa gestão integrada suportada por critérios quantitativos estarão melhor posicionadas para prevenir, minimizar ou recuperar perdas no valor para os acionistas.
Por Ricardo Teixeira, sócio da área de Advisory da Acta Consultores.



